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Quarenta anos depois de 1968 Em 2008 comemoram-se 40 anos de um famoso período que transformou o conformismo e a habilidade de revolução do ser humano. Devo admitir que, apesar de ter vindo ao mundo em 1976, possuo certo encanto pelo ano de 68. Embora nem ao menos fosse nascida naquela época, penso que todo jornalista carrega um pouco de inveja da consciência política e idealismo da juventude que a viveu, e também uma reservada pedra no sapato pela perseguição à liberdade de expressão. Antes de tudo, esclareço que estou longe de ser comunista, e sei que apesar do avanço da inflação que ocasionava o aumento da pobreza e da grande desigualdade social, os Anos de Chumbo também trouxeram significativo progresso econômico na história recente do país . Todavia, acho interessante refletirmos porque a geração de 60 mudou nossa maneira de ver o mundo. A década de 40 entrou para a História por conta do fim da Segunda Guerra Mundial, quando os anos 80 lembram a queda do Muro de Berlim, o movimento das Diretas Já e a eleição do primeiro presidente civil. Segundo recente matéria da revista Época, todos esses anos têm eventos tão únicos que é fácil saber o que representam. No entanto, nenhum deles se compara a 1968. Se pararmos para pensar, este foi o ano da experimentação das drogas e da pílula anticoncepcional. Do movimento feminista e da defesa dos direitos homossexuais. Da revolta dos estudantes em Paris (que resultou na queda do general De Gaulle) , da Primavera de Praga e da revolução Flower Power. Do surgimento dos slogans: “Faça amor, não faça guerra”, “É proibido proibir” e “Paz e amor”. Atire a primeira pedra quem nunca sentiu vontade de empunhar uma bandeira na passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, ou ouvir o memorável discurso de Luther King (assassinado no mesmo ano), cujo sonho era a igualdade entre os homens, ou até mesmo conhecer o famoso Verão do A mor, em São Francisco , quando uma multidão clamava pela retirada das tropas americanas do Vietnã, usando uma flor nos cabelos? Em pesquisa realizada nos EUA, mais de dois terços dos entrevistados se diziam frustrados por não estarem lá na ocasião. E como as pessoas estavam descobrindo que, através da música, poderiam chamar a atenção para as coisas que consideravam erradas, o ápice veio com o Festival de Woodstock, realizado em uma fazenda no estado de Nova York, onde cerca de 500 mil jovens conviveram por três dias em clima de harmonia. Ainda na mesma publicação, li um relato do cantor Bob Dylan afirmando que 1968 foi o último ano em que todas as utopias eram permitidas e que hoje em dia “ninguém mais quer sonhar”. Para o escritor e jornalista Zuenir Ventura, serão necessários muitos anos para que se entenda seu legado: “Ainda ninguém explicou por que tudo aconteceu naquele ano e de que forma o mundo absorveu seus impulsos revolucionários” – disse. Num panorama geral, tratava-se de uma revolução feita essencialmente por jovens, que tomou proporção mundial e cuja ação girava em torno da palavra liberdade. Os estudantes tinham e queriam garantir voz política, ainda que defendendo suas idéias de maneira equivocada, mas essa rebeldia não significava crueldade, e sim um grito contra as regras. No entanto, tal movimento foi adotando uma linha de questionamento muito além da política, mas também da moral, do comportamento e de como se tratava o amor. Existia, enfim, um projeto de preocupação social, de mudança. Essa ampla agitação cultural era o que propiciava o clima de magia de 1968, ano em que os principais valores estabelecidos foram postos em questão. De toda forma, a única atitude que entendo como grande equívoco da época chama-se luta armada, formada em prol dos movimentos políticos, de forte conotação partidária, que foi incentivada por ambos os lados. Hoje, 40 anos depois, mudaram as guerras, cresceu a população e a violência e a busca pelo sonho adquiriu novas características. Sendo assim, caro leitor, lhe convido a refletir: Quem caminha procura um ideal? Peregrinar é ir contra o estabelecido em busca de si mesmo? Colocar a velha mochila nas costas seria uma forma de, diante de tantas barbaridades sociais, reviver a ideologia hippie, a fraternidade entre os povos, o regresso da fase paz e amor? Será que, mesmo de forma inconsciente, ao seguir essa trilha estaríamos estimulando um novo movimento? Uma tendência que não seja voltada apenas para o leviano, mas que também prevaleça nos costumes e relacionamentos pessoais? Incitaríamos, portanto, uma postura mais sensível em relação à vida e ao ser humano? Confesso, com uma ponta de excitação, que meu pensamento voou longe. Por fim, de minha parte, registro a lição de José Datrino, o contemporâneo poeta Gentileza. O mesmo tornou-se conhecido em 1980 por fazer inscrições peculiares sob um viaduto no Rio de Janeiro , onde andava com túnica branca e longa barba. Em sua pregação, levava palavras de amor, bondade, respeito pelo próximo e pela natureza. Quando questionado sobre o porquê, respondia: “Fazendo isto não tenho certeza se as pessoas mudarão. Se não fizer, no entanto, tenho a confiança de que nunca poderão se transformar”. SEJAMOS, PORTANTO, MAIS GENTIS, AFINAL, O TIBET , O ORIENTE MÉDIO E O MUNDO INTEIRO PRECISAM.
- Agradecimentos ao querido Artur, que complementou o texto com o depoimento de quem viveu, e não de quem leu; de quem viu, e não de quem ouviu falar. (Por Fabiana Passos) - Fabiana é jornalista e autora do livro “Caminhos Que Nunca Terminam”, Ed. Luzes. Tem 31 anos e fez o Caminho do Sol em 2003; e o Caminho da Luz em 2004/2005. Sugestões de pauta: fabipassos76@terra.com.br Texto Anterior - "EDITORIAL PEREGRINO - “ RECONSTRUINDO A NÓS MESMOS ! ” |
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