![]() |
|||||||
|
O CAMINHO DE SANTIAGO Primeiramente, é imprescindível deixar claro que escrever sobre o Caminho de Santiago nunca traduzirá, ao pé da letra, a transformação que é vivê-lo. Organizar as sensações no retorno é tarefa de Hércules, pois nos questionamos diariamente para onde levaremos nossa mochila, nossa bagagem, nossas lembranças, nosso “eu mesmo”. Neste momento, sempre haverá pensamentos e sentimentos demais dentro de nós, o que tornará tudo meio confuso e apertado, entretanto, prometo me esforçar para tentar explanar com clareza um pouco do que pude absorver em setembro de 2009, quando finalmente afivelei a mochila e coloquei o pé na estrada. Espero que as considerações abaixo descritas possam ajudar a quem quer que seja, pois umas das coisas que me fez registrá-las foi lembrar que, mesmo com o passar do tempo, alguns ensinamentos não perdem sua força, seu valor e sua utilidade. A FÉ Para percorrer o Caminho sabemos que é necessário coragem, determinação e certo espírito de aventura, todavia, antes mais nada, é preciso ter FÉ. Quando falo em FÉ quero dizer confiança no seu DEUS (seja ele qual for) e confiança em si próprio. Não desejo fazer apologia a qualquer tipo de religião, mas afirmar, com todas as letras, que quando não sabemos para qual direção queremos ir nenhum vento soprará a favor. Seja cauteloso quando for a sua vez, pois apesar das belíssimas paisagens, existem períodos em que a água fica morna, a mochila pesa mais, os pés latejam incessantemente e um silêncio perigoso paira no ar. E nessas horas, meu amigo, quando você se sentir sujo e cansado, a única coisa que o conduzirá adiante será uma força de aço inoxidável e uma firme disposição interior em acreditar que é exatamente aquele o Caminho a seguir. Vale lembrar que quanto mais você se aproxima de suas metas, mais crescem as dificuldades. A IGUALDADE É no mínimo curioso notar que, ao usar botas, mochila e cajado, somos todos muito parecidos na condição de peregrinos. Independente da idade e condição social, o Caminho aproxima e iguala as pessoas, pois todos estão ali com o mesmo objetivo: andar 790 km e chegar, com saúde, em Santiago de Compostela. Existe uma intimidade muda entre pessoas que nunca se olharam ao compartilhar cheiros e espaços. Alguém que você não conhece talvez lhe ofereça um esparadrapo, um pedaço de sanduíche, um escalda pé, um ombro. E esse mesmo alguém não estará interessado em saber o que você é, mas quem você é, o que pretende da vida e se tem coragem suficiente para realizar seus sonhos. Para finalizar, talvez essa pessoa lhe faça uma intrigante pergunta que o acompanhará durante boa parte do percurso: “Porque, afinal, você resolveu fazer o Caminho de Santiago?”. O CAMINHO DE CADA UM Se você optou por cruzar o norte da Espanha a pé, prepare-se, mesmo acreditando que a ajuda divina existe e estará junto com você. Seu corpo precisa ter ciência do esforço, pois trata-se de um enorme desafio físico. Andar 30 km por dia com peso nas costas é coisa séria, e quanto mais disposto você estiver para encarar as dificuldades, mais produtivo o Caminho será para você. Porém, mesmo com todos os mapas decorados e o preparo físico de um maratonista, não seja pretensioso imaginando que o Caminho será fácil e que a vitória está garantida, pois a vaidade é armadilha arriscada. Cada pessoa tem o seu Caminho e essa experiência vai lhe mostrar o que você precisa ver e não o que acha que deve encontrar. Com o tempo todos percebemos que, mudamente surdo, este Caminho talvez seja o único que, sem dizer nada, diz tudo. A PAZ Nos albergues convivemos com pessoas dos mais diferentes pontos do planeta. Caminhamos ao lado de coreanos, australianos, franceses, italianos, alemães, austríacos, argentinos, entre outros. Existe uma linguagem única, que é a linguagem universal dos peregrinos. Certo dia, ao refazer meus curativos na saída de Leon, uma canadense sentou-se ao meu lado e se prontificou a me ajudar. Seus olhos encheram-se de lágrimas ao ver meus pés, e enquanto não arranjamos juntas uma solução para eles, ela não partiu. É impressionante como tanta gente diferente, de nacionalidades distintas e culturas diversas respeitam o outro e convivem em harmonia. E de repente, me pego sentada na cozinha de um dos albergues observando o movimento. Foi quando repeti, para mim mesma, aquela antiga e utópica pergunta: “Será possível a paz no planeta?”. Faço questão de registrar que me emocionei com esses pequenos detalhes e que eles também forneceram combustível suficiente para seguir adiante. No mais, o que posso garantir é que essa experiência possuirá a capacidade de te levar ao estágio mais interessante do ser humano. AS PEDRAS E AS MONTANHAS Quem nunca subiu uma montanha dificilmente compreende o que alguém vai fazer lá. No Caminho, ao contemplar a natureza selvagem no topo de uma delas, fiquei em estado de graça. Ao observar a delicadeza e energia de pessoas que vivem tão afastadas da civilização, também. Até Compostela você terá uma infinidade delas, juntamente com muitas, muitas pedras, que dificultarão o equilíbrio de seu passo nas subidas e descidas. Inicialmente, qualquer colina parecerá alta demais, mas com o tempo, acredite, você crescerá junto com ela! A cada passo, amadurecerão unidos, você e a montanha. Ela, na sua ameaçadora imobilidade, oferecerá obstáculos suficientes para o peregrino ter certeza de que é seguro ser quem ele é. O caminhante, em contrapartida, não terá mais medo da muralha, mas nutrirá profundo carinho e respeito pela mesma. Assim é a vida, leitores. Invariavelmente, vamos nos deparar com montanhas que precisaremos cruzar. Olhamos para cima, calculamos a distância, tomamos cuidado com as pedras e fazemos os ajustes que devem ser feitos. Adaptamos um detalhe aqui, outro acolá, aprendemos a conviver com nossas fraquezas, potencializamos nossa força, afinamos o ritmo e continuamos em frente, tentando nos manter firmes e valorizar o motivo maior pelo qual estamos aqui (quando você descobrir, me confidencie). Por hora, mesmo sem as setas amarelas, sugiro que prossigamos, pois é da natureza humana avançar. E somente existe vida quando há movimento, gente! Partir e chegar, buscando sempre no retorno uma condição mais plena do que a antecedente... vamos juntos? O céu é o limite. Para o alto e avante... “O mar escuro trará o medo lado a lado com os corais mais coloridos... valeu a pena!” (Pescador de Ilusões / O Rappa)
Por Fabiana Passos - Fabiana tem 33 anos, é jornalista e autora do livro Caminhos que Nunca Terminam, Ed. Luzes. Percorreu o Caminho do Sol (março/2003), o Caminho da Luz (dezembro/2004) e o Caminho de Santiago (setembro/2009). Sugestões de pauta: fpassos76@gmail.com
|
||||||